ST Ia, q. 1, a. 6: Se essa Doutrina é sabedoria

 Texto latino:

PRIMA PARS

QUAESTIO 1: DE SACRA DOCTRINA, QUALIS SIT, ET AD QUAE SE EXTENDAT

ARTICULUS 5: UTRUM HAEC DOCTRINA SIT SAPIENTIA

IN titulo, nota ly sapientia, idest, notitia ordinativa et iudicativa de aliis, ut caput: hoc enim sapientiae nomen importat, ut patet VI Ethic.[1], in communi loquendo.

II. In corpore una conclusio est, responsiva quaesito affirmative: Sacra doctrina est maxime sapientia inter omnes sapientias humanas, non solum in genere, sed simpliciter.

Et adverte quod ly simpliciter determinat sapientiam humanam, sicut etiam ly in genere: ita quod sensus est, quod sacra doctrina, tam relata ad sapientias in genere, quam ad sapientiam humanam simpliciter, est maxime sapientia.

III. Probatur. Sacra doctrina determinat propriissime de Deo secundum quod est altissima causa: ergo sacra doctrina est maxime sapientia, etc. – Antecedens probatur. Determinat de Deo, non solum ut cognoscibili per creaturas, sed secundum quod sibi soli naturaliter est notus: ergo propriissime, etc.

IV. Circa antecedens et eius probationem, nota quod ea quae nobis naturaliter occulta sunt de Deo, quemadmodum magis propria sunt Deo in cognoscendo, ita et in essendo. Et propterea scientia determinans de Deo secundum illa quae soli Deo sunt nota, est scientia de Deo ex propriis Dei: et ideo merito dicitur quod propriissime determinat de Deo. Et quoniam secundum huiusmodi propria habentur prima supremaque fundamenta causalitatis divinae, idcirco dicitur quod determinat propriissime de Deo secundum quod est causa altíssima.

Veruntamen hic cautus esto: quoniam ly secundum quod est altissima causa dupliciter potest exponi. Uno modo, ut ly secundum determinet rationem formalem Dei, ut est subiectum sacrae doctrinae. Et sic falsum est assumptum: quoniam, ut in sequenti patet articulo, Deus inquantum Deus, est subiectum eius, et non inquantum causa altissima. – Alio modo, ut ly secundum determinet quandam specialem rationem Dei, clausam infra latitudinem conditionum pertinentium ad considerationem sacrae doctrinae, eo quod consequitur deitatem. Et sic est verum: intendit enim littera quod sacra doctrina considerat de Deo propriissime, et consequenter secundum quod etiam causa altissima: quod ad sapientiam spectat.

V. Consequentia[2] autem probatur. Iudicium de inferioribus habetur per causam altiorem: ergo considerans causam altissimam generis alicuius, est sapiens in illo genere. Ergo considerans causam simpliciter altissimam totius universi, idest Deum, est maxime sapiens. Ergo, si qua considerat Deum propriissime secundum quod est causa altissima, illa est maxime sapientia inter omnes, tam in genere quam simpliciter: quod erat consequentia probanda.

Assumptum est clarum. – Et prima consequentia probatur quidem, quia sapientis est iudicare et ordinare: manifestatur vero in genere aedificii, et in genere totius humanae vitae, cura auctoritatibus Scripturae adiunctis, ut patet in littera. – Secunda vero ex eodem probata relinquitur medio, subintellecta proportionalitate causae altissimae in genere ad sapientiam in genere, et causae altissimae simpliciter ad sapientiam simpliciter: et ex testimonio Augustini confirmatur. Vocatur autem in hac deductione sapientia simpliciter maxime sapientia, ad denotandum excessum eius super sapientias in genere. – Tertia autem consequentia per se nota relinquitur, quoniam si considerans simpliciter altissimam causam, idest Deum, est simpliciter et maxime sapiens, respectu sapientium in genere hoc aut illo; oportet quod considerans eandem causam altissimam ex propriis, non solum sit simpliciter, sed et maxime sapiens, et respectu sapientium in genere, et respectu sapientis simpliciter; utpote transcendens ipsum in hoc, quod propria altissimae causae rimatur, cum ille sistat in communibus, et his quae per communia sciri possunt. Omnes enim rationes quas de Deo metaphysica habet, aut sunt communes, si sunt simplices, ut ens, verum, bonum; aut sunt ex communibus compositae, si sunt propriae Deo, ut actus purus, primum ens, etc.

VI. In responsione ad tertium, inducitur laus Hierothei, magistri Dionysii, quod erat non solum discens secundum intellectum, sed patiens secundura affectum, divina: quoniam donum sapientiae est in intellectu formaliter, in voluntate autem causaliter. Et dicitur patiens a passione, eo modo quo vehementer affecti circa aliquid, passionati dicuntur: in quo denotatur maxima voluntatis inclinatio, ut iam habituata et connaturalis effecta ad divina, etc.



[1] Cap. VII, n. 3.

[2] Cf. num. III.


Santo Agostinho (354 - 430)

Tradução livre:

QUESTÃO 1: SOBRE A DOUTRINA SAGRADA, COMO É, E AO QUE SE ESTENDE

ARTIGO 1: SE ESSA DOUTRINA É SABEDORIA

NO título, note-se o termo sabedoria, isto é, notícia ordenativa e judicativa sobre outras, como cabeça: pois isso importa o nome de sabedoria, como fica claro na Ética VI, falando comumente.

II. Há uma conclusão no corpo do texto, respondendo afirmativamente à questão: a doutrina Sagrada é a máxima sabedoria entre todas as sabedorias humanas, não só em gênero, mas simpliciter.

E advirta-se que o termo simpliciter determina a sabedoria humana, assim como também o termo em gênero: assim também, o sentido é que a doutrina sagrada, relacionada tanto à sabedoria em gênero, quanto à sabedoria humana simpliciter, é a máxima sabedoria.

III. Prova-se. A doutrina sagrada determina propriissimamente sobre Deus segundo o fato de ser a causa altíssima: logo, a doutrina sagrada é a máxima sabedoria, etc. – Prova-se a antecedente. Determina sobre Deus, não só como cognoscível pelas criaturas, mas segundo o fato de ser naturalmente noto apenas por Ele mesmo: logo, propriissimamente, etc.

IV. Acerca da antecedente e de sua prova, note-se que aquelas coisas sobre Deus que nos são naturalmente ocultas, assim como são mais próprias a Deus no conhecer, assim também no [ato de?] ser. E, portanto, a ciência que determina sobre Deus, segundo aquilo que é noto só por Deus, é a ciência sobre Deus a partir do próprio Deus: e, portanto, com mérito se diz que propriissimamente determina sobre Deus. E como segundo esses tipos de coisas se tem propriamente os primeiros e supremos fundamentos da causalidade divina, diz-se, portanto, que determinam propriissimamente sobre Deus segundo o fato de ser a causa altíssima.

Não obstante, seja cauteloso aqui: pois a expressão segundo o fato de ser a causa altíssima, pode ser explicada por dois modos. Pelo primeiro modo, o termo segundo determina a razão formal de Deus, visto que é o sujeito da doutrina sagrada. E assim é falso assumir: como fica patente no artigo seguinte, que Deus enquanto Deus é seu sujeito, e não enquanto causa altíssima. – Por outro modo, o termo segundo determina uma certa razão especial de Deus, fechada abaixo da latitude das condições pertinentes à consideração da doutrina sagrada, por aquilo que resulta na divindade. E assim é verdade: pois o texto intende aquilo que a sagrada doutrina considera de Deus propriissimamente e, consequentemente, segundo aquilo que é também a causa altíssima: que diz respeito à sabedoria.

V. Agora se prova a consequente. O julgamento das inferiores se tem pela causa mais alta: portanto, quem considera a causa altíssima de qualquer gênero, é sábio nesse gênero. Logo, quem considera simpliciter a causa altíssima de todo o universo, isto é, Deus, é maximamente sábio. Logo, se de algum modo se considera Deus propriissimamente segundo o fato de ser a causa altíssima, essa é a máxima sabedoria entre todas, tanto em gênero quanto simpliciter: essa era a consequente a ser provada.

A suposição é clara. – E a primeira consequência está de fato provada, porque pertence ao sábio julgar e ordenar: ora, manifesta-se isso no gênero do edifício, e no gênero de toda a vida humana, [com] a preocupação pelas autoridades ligadas às Escrituras, como fica claro no corpo do texto. – Mas a segunda, provada a partir do mesmo, é deixada no meio, sub-entendida pela proporcionalidade da causa altíssima no gênero à sabedoria em gênero, e da causa altíssima simpliciter à sabedoria simpliciter: e é confirmada pelo testemunho de Agostinho. Ora, a sabedoria é chamada nesta dedução simpliciter de máxima sabedoria, para denotar seu excesso acima das sabedorias em gênero. – Mas a terceira consequência fica nota per se, porque quem considera simpliciter a causa altíssima, isto é, Deus, é simpliciter e maximamente sábio, com respeito aos sábios deste ou daquele gênero; é necessário que, quem considera a mesma causa altíssima a partir dos próprios, não seja apenas simpliciter, mas também maximamente sábio, tanto com respeito aos sábios em gênero, como com respeito aos sábios simpliciter; como transcendendo a si mesmo no seguinte: que os próprios da causa altíssima sejam escrutinados, visto que está nos comuns e naquelas coisas que podem ser conhecidas [cientificamente] por comuns. Pois todas as razões que a metafísica tem sobre Deus, ou são comuns, se forem simples, como ente, verdadeiro, bom; ou são compostas a partir de coisas comuns, se forem próprios a Deus, como ato puro, ente primeiro, etc.

VI. Em resposta à terceira [objeção], é induzido o louvor a Hieroteu, mestre de Dionísio, de que ele era divino não só discente segundo o intelecto, mas padecente secundo o afeto: visto que o dom da sabedoria está formalmente no intelecto, mas na vontade causalmente. E diz-se paciente da paixão, do mesmo modo que se diz apaixonado quem está veementemente afetado acerca de algo: no que se denota a máxima inclinação da vontade, já habituada e conaturalmente efetuada em direção ao divino, etc.



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