ST Ia, q. 1, a. 5: Se a Doutrina sagrada é mais digna que as outras ciências

 Texto latino:

PRIMA PARS

QUAESTIO 1: DE SACRA DOCTRINA, QUALIS SIT, ET AD QUAE SE EXTENDAT

ARTICULUS 5: UTRUM SACRA DOCTRINA SIT DIGNIOR ALIIS SCIENTIIS

TITULUS clarus. – In corpore una conclusio bimembris, responsiva quaesito affirmative: Sacra doctrina est dignior, secundum quod speculativa, omnibus speculativis; et secundum quod practica, omnibus practicis.

II. Antequam probetur conclusio, adverte quare in conclusione ponantur illae specificationes, scilicet secundum quod speculativa, secundum quod practica. Non enim frustra hoc actum est. Sed, ut ex praecedenti articulo[1] patet, ista doctrina habet in se duo: primum est, quod est scientia altioris ordinis quam sint scientiae physicae; secundum est, quod continet conditiones speculativae et practicae formaliter. Ratione primi, non est dubium quin sit dignior ceteris, cum ponatur altioris ordinis. Sed quoad secundum poterat dubitari: et propterea, licet in titulo fuerit quaesitum absolute, in responsione deventum est ad id quod poterat sub dubio cadere; et responsum est quod ipsa, inquantum speculativa, est dignior speculativis, et inquantum practica, practicis; omisso illo liquido, quod absolute est omnium dignissima, quia altioris ordinis.

III. Probatur ergo primo quoad primam partem[2]. Inter speculativas dignior est una altera propter certitudinem et dignitatem materiae, ex I de Anima[3]: haec excellit quoad utrumque: ergo. – Probatur minor quoad primam partem. Haec est certa lumine divino infallibili, aliae lumine humano fallibili: ergo ista est certior. Intellige secundum se, non nobis, ut patet ex responsione ad primum. – Quoad secundam vero: haec est de excedentibus rationem humanam, aliae de subditis rationi humanae: ergo ista est de dignioribus. Fundatur haec ratio super illud II Metaphys.[4], sicut oculus noctuae ad lumen solis etc.: inde siquidem habetur quod excedentia vim intellectus nostri, sunt manifestissima in se ac lucidissima. Ac per hoc, propriae rationes substantiarum intellectualium, quae remanent occultae propter excellentiam earum, sunt digniores illis earundem conditionibus, quas ex sensibilibus abstrahere possumus in metaphysica, etc. Et ideo, cum de huiusmodi excedentibus sit ista scientia, sequitur quod sit de dignioribus, non rebus, quia nulla res Deo est dignior, sed rerum conditionibus.

IV. Secunda autem conclusionis pars[5] probatur. Practicarum illa dignior, quae ad ulteriorem finem non ordinatur: sed finis huius est finis ultimus finium omnium aliarum: ergo. – Probatur maior in civili et militari. Minor vero, quia finis huius est beatitudo aeterna.

V. Adverte hic quod maior intelligitur, non absolute ut iacet, sed de practicis subordinatis. Quoniam non est verum, inter practicas disparatas, digniorem esse quae ad ulteriorem finem non ordinatur: dignius namque est ministrare superioris ordinis arti, puta aurifici, quam principari in arte inferioris ordinis, puta figuli. Sed inter practicas quarum una subordinatur alteri, procul dubio maior est vera. Et propterea in littera non subsumptum est absolute quod theologiae finis non subordinatur ad alterum: sed subsumpta sunt duo: et quod omnes aliae practicae subordinantur isti, dicendo quod fines aliarum scientiarum practicarum ordinantur ad finem istius; et quod finis istius est ultimus, etc. Sic enim perfecta est ratio, omni exclusa calumnia.

VI. Sed memento hic primo illius distinctionis finis: scilicet in finem rationis operandi, seu rei operatae, et in finem operantis. Quoniam beatitudo aeterna non est finis ultimus omnium operantium, cum multi operentur contra illam, a virtute recedendo, secundum artes tamen recte operando: sed est finis omnium rationum operandi, et omnium rerum operatarum, quoniam omnia ordinantur ad bonum rationis, quod tandem ordinatur in beatitudinem aeternam. Et ideo in littera caute dicitur quod fines aliarum scientiarum, et non dicitur fines scientium, ordinantur ad beatitudinem aeternam.

Memento secundo alterius distinctionis: scilicet finis intrinseci, et extrinseci. Et intellige quod finis extrinsecus theologiae inquantum practica, est beatitudo, quae est ultimus finis, idest visio Dei; licet finis intrinsecus eius ut sic, sit operari. Nec hoc obstat efficaciae rationis in littera factae, quae de fine intrinseco practicarum scientiarum loquitur: quoniam littera loquitur de fine proximo, sive extra sive intus. Nihil enim refert quoad dignitatem practicae, an finis eam nobilitans afferatur intus vel extra, dummodo sit proximus. Sic autem est in proposito: quoniam, ut in praecedenti articulo dixit Auctor, de operibus nostris tractamus quatenus per ea ordinamur ad Dei contemplationem. Ceterae autem scientiae docent operari propter hunc finem remote. – Hoc autem, scilicet quod haec scientia inquantum practica habet eundem finem proximum quem habet inquantum speculativa (licet alio modo, quia extrinsece), convenit huic scientiae quia est secundum quid practica: si enim esset pure practica, speculari remotus eius finis esset.

VII. Responsio ad secundum duabus distinctionibus utitur. Accipere dupliciter: a superiori, vel ab inferiori. Et hoc dupliciter: vel propter defectum seu insufficientiam accipientis; vel subventionem defectus alieni, puta intellectus nostri in proposito.


[1] Cf. comment. num. VII sq.

[2] Cf. num. I.

[3] Cap. I, n. I.

[4] Cap. I. – Did. lib. I (α), c. I, n. 2.

[5] Cf. num. 1.


Platão (428 a.C. - 348 a.C.)

Tradução livre:

PRIMEIRA PARTE

QUESTÃO 1: SOBRE A DOUTRINA SAGRADA, COMO É, E AO QUE SE ESTENDE

ARTIGO 1: SE A DOUTRINA SAGRADA É MAIS DIGNA QUE AS OUTRAS CIÊNCIAS

TÍTULO claro. – No corpo do texto, uma conclusão de dois membros, respondendo afirmativamente: a doutrina sagrada é mais digna, segundo o que é especulativa, do que todas as especulativas; e segundo o que é prática, do que todas as práticas.

II. Antes de se provar a conclusão, advirta-se porquê essas especificações foram colocadas na conclusão, a saber, segundo o que especulativas, segundo o que práticas. Pois este ato não foi em vão. Mas, como fica claro pelo artigo anterior, esta doutrina tem em si duas coisas: a primeira é que é uma ciência de ordem superior às ciências físicas; a segunda é que contém formalmente condições especulativas e práticas. Pela primeira razão, não há dúvida de que é mais digna que as outras, já que é colocada numa ordem superior. Mas quanto à segunda, pode-se duvidar: e, portanto, embora no título seja perguntado de modo absoluto, na resposta chegamos a algo que pode cair em dúvida; e a resposta é que, na medida em que é especulativa, é a mais digna das especulativas, e na medida em que é prática, das práticas; omitindo aquela limpidez, de que ela é absolutamente a mais digna de todas, porque é de ordem superior.

III. Logo, se prova primeiro quanto à primeira parte. Entre as especulativas, uma é mais digna que a outra por causa da certeza e da dignidade da matéria, a partir de sobre a Alma I: esta é excelente em ambas: logo. – Prova-se a menor quanto à primeira parte. Esta é certa pela luz divina infalível, a outra pela luz humana falível: logo, esta é mais certa. Entendida segundo si, não a nós, como fica claro pela resposta à primeira [objeção]. – Quanto à segunda: esta é sobre aquelas coisas que excedem a razão humana, as outras sobre aquelas coisas que estão sujeitas à razão humana: logo, esta é sobre aquelas coisas que são mais dignas. Esta razão se funda sobre a Metafísica II, assim como o olho da coruja à luz do sol, etc. Disto se segue que, excedendo a virtude do nosso intelecto, são mais manifestas em si mesmas e mais lúcidas. E por isto, as razões próprias das substâncias intelectuais, que permanecem ocultas por causa de sua excelência, são mais dignas dessas mesmas condições, que podemos abstrair do sensível na metafísica, etc. E, portanto, como esta ciência é sobre tais tipos de excedentes, segue-se que é sobre tais mais dignas, não de coisas[1], porque nenhuma coisa é mais digna que Deus, mas das condições das coisas.

IV. A segunda parte da conclusão se prova. A mais digna das práticas é aquela que não se ordena a um fim ulterior: mas o fim disto é o fim último de todos os outros fins: logo. – Prova-se a maior pela civil e militar. Porém são menores, porque o fim da doutrina sagrada é a beatitude eterna.

V. Advirta-se aqui que a maior se entende, não absolutamente como jaz, mas sobre as práticas subordinadas. Pois não é verdade que, entre as práticas díspares, que aquela que não é ordenada para um fim ulterior seja mais digna: pois é mais digno ministrar à arte de uma ordem superior, como o ourives, do que ser a principal numa arte de ordem inferior, como o oleiro. Mas entre as práticas, uma das quais está subordinada à outra, a maior é sem dúvida verdadeira. E, portanto, no texto não se assume absolutamente que o fim da teologia não está subordinado a outro: mas dois estão sub-assumidos: que todas as outras ciências práticas estão subordinadas a esta, dizendo que os fins das outras ciências práticas estão ordenados ao fim desta; e que o fim desta é o último, etc. Pois assim a razão é perfeita, excluída de toda calúnia.

VI. Mas lembre-se aqui primeiro do fim dessa distinção: a saber, no fim da razão de operar, ou da coisa operada, e no fim do operante. Pois a beatitude eterna não é o fim último de todos aqueles que operam, pois muitos operam contra ela, afastando-se da virtude, mas ainda assim operando retamente segundo suas artes: mas é o fim de todas as razões de operar, e de todas as coisas operadas, uma vez que tudo está ordenado ao bem da razão, que finalmente está ordenado à beatitude eterna. E por isso cuidadosamente se diz no texto que os fins das outras ciências, e não os fins dos conhecidos [cientificamente], são ordenados para a beatitude eterna.

Lembre-se, em segundo lugar, outra distinção: a saber, o fim do intrínseco e do extrínseco. E entenda que o fim extrínseco da teologia, na medida em que é prática, é a beatitude, que é o fim último, isto é, a visão de Deus; embora seu fim intrínseco, como tal, seja operar. Isto também não impede a eficácia da razão apresentada no texto, que fala do fim intrínseco das ciências práticas: já que o texto fala do fim próximo, seja extrínseco ou intrínseco. Pois não faz diferença quanto à dignidade da prática se o fim que a enobrece é alcançado intrinsecamente ou extrinsecamente, desde que seja o mais próximo. E assim está no propósito: visto que, como disse o Autor no artigo anterior, tratamos de nossas obras na medida em que somos por elas ordenados à contemplação de Deus. Mas as outras ciências ensinam operar por causa desse fim remoto. – Ora, isto, a saber, que esta ciência, enquanto prática, tem o mesmo fim próximo que tem enquanto especulativa (embora de um modo diferente, porque extrínseco), é conveniente a esta ciência porque é prática secundum quid: pois se fosse puramente prática, seu fim seria remoto da especulação.

VII. A resposta à segunda [objeção] utiliza duas distinções. Receber ou aceitar se diz de dois modos: do superior ou do inferior. E isso de dois modos: ou por causa do defeito ou da insuficiência do receptor; ou [por causa] da subvenção do defeito de outro, por exemplo, do nosso intelecto no propósito.



[1] Um problema a tradução disto! A partir de aqui evitarei usar coisas como algo.



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