ST Ia, q. 1, a. 9: Se a Doutrina sagrada deveria usar metáforas

 Texto latino:

PRIMA PARS

QUAESTIO 1: DE SACRA DOCTRINA, QUALIS SIT, ET AD QUAE SE EXTENDAT

ARTICULUS 9: UTRUM SACRA SCRIPTURA DEBEAT UTI METAPHORIS

IN titulo, uti metaphoris est uti locutionibus quae non verificantur de his de quibus dicuntur, secundum propriam significationem, sed secundum aliquam similitudinem ad proprie significata: ut cum dicitur quod Deus noster ignis consumens est[1], utimur metaphora; quia Deus non est vere ignis, sed se habet ad modum ignis consumentis. Et sic de aliis. Et occasionem sumit quaestio haec ex II Poster.[2], ubi prohibentur metaphorae in scientiis.

II. In corpore una conclusio, responsiva quaesito affirmative: Sacra doctrina congrue utitur metaphoris corporalium ad divina et spiritualia.

Probatur dupliciter. Primo. Deus omnibus providet prout congruit eorum naturae. Ergo convenienter homini in sacra doctrina spiritualia sub corporalibus similitudinibus traduntur. – Antecedens patet. Consequentia vero probatur: quia naturale est homini ad intelligibilia per sensibilia duci. Probatur: quia omnis nostra cognitio oritur a sensu. Et confirmatur haec ratio auctoritate Dionysii, etc.

Secundo. Sacra doctrina proponitur omnibus hominibus communiter. Ergo congrue spiritualia sub similitudinibus corporalium traduntur. – Antecedens probatur ad Rom. I. Consequentia autem probatur: quia plures non sunt idonei ad intelligibilia secundum se, qui vel sic ea capere possunt.

III. In responsione ad primum, dubium occurrit, quomodo verificetur quod haec doctrina utatur metaphoris propter necessitatem et utilitatem, ut dictum est. Nulla siquidem necessitas est, aut in corpore ostensa est. Secunda namque ratio utilitatem tantum infert, ut patet: prima vero convenientiam, ut ipsa littera testatur, et convinci potest ex eo quod connaturalitas nostra ad sensibilia non infert necessitatem ad talia sensibilia, scilicet metaphoras. – Et augetur dubium: quia nihil est metaphorice in Scriptura traditum, quod non possit proprie doceri. Nulla ergo est necessitas utendi metaphoris in hac doctrina, quamvis convenienter et utiliter eis utatur.

IV. Ad hoc dicendum mihi videtur, quod uti metaphoris in hac doctrina est quodammodo necessarium, et quodammodo non: et hoc respectu non horum aut illorum, puta minus idoneorum, sed respectu hominis viatoris. Est siquidem necessarium propter melius consequendum finem, scilicet cognitionem Dei. Et haec necessitas ostenditur per primam rationem litterae. Ex hoc namque quod connaturale est homini intelligibilia per sensibilia tantum nosse, oportet, si spiritualia facile et suo modo cognoscere debet, ut per metaphoras cognoscat: quoniam metaphorae supplent vices spiritualium specierum, quae de spiritualibus haberi deberent secundum se. – Non est autem necessarium simpliciter: quia etsi non absque phantasmatibus, tamen absque metaphoris posset homo etiam in hoc statu capere quae dicuntur, licet non ita facile.

Et per hoc patet solutio ad obiecta[3]. Prima namque ratio ostendit non solum convenientiam, sed, ostendendo convenientiam, ex hoc ipso ostendit necessitatem, non simpliciter, sed propter melius. – Et si contra hoc instetur auctoritate Dionysii in littera allata, impossibile est: dici potest quod impossibile distinguitur sicut et necessarium: quoniam impossibile et necessarium non aequipollent; et perinde est ac si diceretur, necesse est non aliter lucere nobis, etc.



[1] Ad Hebr. XII, 29.

[2] Cap. XII, n.26.

[3] Cf. num. praec.


Maria, Arca da Aliança.

Tradução livre:

PRIMEIRA PARTE

QUESTÃO 1: SOBRE A DOUTRINA SAGRADA, COMO É, E AO QUE SE ESTENDE

ARTIGO 9: SE A DOUTRINA SAGRADA DEVERIA USAR METÁFORAS

NO título, usar metáforas, trata-se de usar locuções nas quais não se verifica, segundo seu significado próprio, aquilo sobre o qual se fala, mas sim segundo alguma semelhança com aquilo que é propriamente significado: como quando se diz que nosso Deus é um fogo consumidor, usamos metáforas; porque Deus não é verdadeiramente fogo, mas se relaciona a modo de um fogo consumidor. E assim também em casos semelhantes. E a ocasião para se fazer essa pergunta, vem de Poster. II, onde se proíbe as metáforas nas ciências.

II. No texto se tem uma conclusão, respondendo afirmativamente à pergunta: a doutrina Sagrada usa congruentemente de metáforas corporais para as coisas divinas e espirituais.

Prova-se duplamente. Primeiro. Deus provê a todos em congruência com a natureza deles. Logo, convenientemente ao homem, na doutrina sagrada, as coisas espirituais são transmitidas sob semelhanças corporais. – A antecedente é patente. Mas prova-se a consequência: porque é natural que o homem seja conduzido ao inteligível pelo sensível. Prova-se: porque todo o nosso conhecimento se origina dos sentidos. E esta razão é confirmada pela autoridade de Dionísio, etc.

Segundo. A doutrina sagrada é proposta a todos os homens comumente. Logo, congruentemente, as coisas espirituais são transmitidas sob as semelhanças das coisas corporais. – A antecedente prova-se em Romanos 1. Ora, prova-se a consequência: porque há muitos que não são idôneos ou que não podem captar as coisas inteligíveis em si, tal como são.

III. Em resposta à primeira objeção, ocorre uma dúvida sobre como se pode verificar que esta doutrina utiliza metáforas por necessidade e utilidade, como afirmado. Na verdade, não há necessidade, como foi mostrado no texto. Pois a segunda razão infere apenas utilidade, como é patente: a primeira, por outro lado, conveniência, como a própria letra testemunha, e pode convencer pelo fato de que nossa conaturalidade com os sensíveis não infere necessidade a tais sensíveis, a saber, as metáforas. – E a dúvida aumenta: porque não há nada metaforicamente transmitido nas Escrituras que não possa ser ensinado em sentido próprio. Não há, portanto, necessidade de usar metáforas nesta doutrina, embora ela as utilize de modo conveniente e útil.

IV. A isto devo dizer que me parece que o uso de metáforas nesta doutrina é de certo modo necessário e de certo modo não: e isso, não tem que ver com isto ou aquilo, p. ex., se é menos idôneo ou não, mas tem que ver com o homem viator. Na verdade, é necessário por causa que assim melhor atinge o fim, a saber, o conhecimento de Deus. E esta necessidade é mostrada pela primeira razão do texto. Pois, pelo fato de ser conatural ao homem conhecer as coisas inteligíveis apenas através das coisas sensíveis, é necessário, se quiser conhecer as coisas espirituais facilmente e do modo dele, que as conheça por meio de metáforas: uma vez que as metáforas fornecem as virtudes das espécies espirituais, que devem ser relacionadas às coisas espirituais segundo elas mesmas. – Mas não é simpliciter necessário: porque, mesmo que não sem fantasmas, mas sem metáforas, o homem poderia, mesmo neste estado, captar o que é dito, embora não tão facilmente. 

E com isso a solução às objeções fica patente. Pois, pela primeira razão mostra não só a conveniência, mas, ao mostrar a conveniência, a partir disso mesmo mostra a necessidade, não simpliciter, mas por causa do melhor. – E se a autoridade de Dionísio citada no texto insiste contra isso, é impossível: pode-se dizer que impossível se distingue tal como necessário: já que impossível e necessário, não são equivalentes; e é como se fosse dito, é necessário que não brilhemos de outro modo, etc.


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