Esclarecimento de ST Ia, q. 1, a. 1: Se é necessária, além das disciplinas filosóficas, se ter outra doutrina
Antes
do método
Antes
de falarmos sobre o método de algo, é comum e às vezes até necessário,
questionarmos a respeito do que é esse algo; e, algumas vezes não só isso, mas
também se existe. Isso se dá fundamentalmente por duas questões filosóficas
primeiríssimas e básicas: an sit &
quod sit, literalmente se é ou se existe & o que é. E
é justamente assim que o Cardeal Caetano, a partir do comentário à primeira
questão da Suma, trata.
A
primeira questão da Suma aborda o tema da Doutrina
Sagrada, sendo que o seu primeiro artigo trata especificamente da
necessidade dessa doutrina, i.e., se além das doutrinas filosóficas, é
necessária alguma outra doutrina para o homem. Como veremos, não só esse artigo,
mas toda essa questão é o cerne do método teológico de Santo Tomás.
Antes
de prosseguirmos, faço duas observações importantes: o termo doutrina aqui, nada tem que ver com doutrinação, mas simplesmente diz
respeito a um conjunto de conhecimentos a respeito de dada coisa; enquanto que
por filosofia se entende todo e
qualquer conhecimento abarcado pela luz natural da razão.
Pois
bem, comecemos então a distinguir os termos da pergunta, pois ninguém desata um
nó, sem saber quais são, como dizia o bom e velho Aristóteles: necessário, disciplinas físicas e doutrina,
estes são os pontos chaves desse artigo.
Evidentemente,
existem vários modos de procedermos ao entendimento do que Santo Tomás quis
dizer com esses termos, mas seguindo as distinções do Cardeal Caetano, temos:
Necessário
ou será simpliciter necessário, i.e.,
absolutamente e simplesmente necessário, algo que sem o qual não se dá tal
realidade; ou será necessário secundum
quid, i.e., por certo ângulo. O que nos importa aqui é essa segunda
distinção de necessário. Então nos
perguntemos: qual é o ângulo de necessidade da doutrina sagrada abordado por Santo Tomás, a partir da
interpretação do Cardeal Caetano? O ângulo do
fim, ou seja, da finalidade, do objetivo. Assim, quando se pergunta se é
necessária uma doutrina sagrada, está se questionando: a doutrina sagrada é
útil para atingir qual fim necessariamente? Guardemos isso, por enquanto.
Disciplinas físicas
ou serão físicas objetivamente ou
serão físicas efetivamente. Caetano
lembra que física e natural são a mesma coisa aqui nessa
discussão. Quando dizemos uma disciplina
física objetiva, estamos falando de uma disciplina realmente distinta de
outras disciplinas, a saber, a Física, que é distinta da Metafísica e da
Matemática, que seriam os três grandes gêneros do conhecimento, a Física
abarcando todo o conhecimento do sensível, a Metafísica do suprassensível e a
Matemática do entremeio, i.e., daquele cognoscível que abstrai da matéria
sensível, mas não da matéria inteligível, que é a quantidade sem considerar a
matéria.
Por
outro lado, quando dizemos disciplina
física efetiva, estamos nos referindo a uma disciplina que nasce, que
surge, da luz do intelecto agente: assim, todo e qualquer conhecimento evidente
(notitia) adquirível pela luz do
intelecto agente faz efetivamente uma disciplina física, pois vem de algo que
nos é natural, i.e., a modo de natureza.
Quanto
ao termo doutrina, Caetano, por
enquanto, faz apenas uma advertência: note-se que Santo Tomás não usou ciência, opinião e nem fé. Fiquemos também com isso, por agora.
Distinguidos
inicialmente os termos que compõe a pergunta do artigo, passemos a sua solução.
E isso se dá em dois momentos com duas conclusões complementares. Primeiro,
Santo Tomás admite a necessidade de uma doutrina sagrada revelada que nos transmita
coisas que estejam acima da capacidade da razão humana. Em segundo lugar,
admite a necessidade de uma doutrina sagrada revelada que nos transmita coisas
que a própria razão humana é capaz de perscrutar. Ambas essas conclusões têm
seu propter quid, i.e., sua causa, na
salvação humana: é necessária por causa da salvação humana.
Para
podermos compreender essa resposta dada por Santo Tomás, o Cardeal Caetano
alerta que existem dois tipos principais de cognoscíveis a respeito de Deus:
aqueles que são demonstráveis, como Deus ser, Deus ser Uno, Deus ser Bom etc.;
e aqueles que são revelados, como Deus ser Trino, Deus ter-se encarnado, a felicidade
eterna etc.
Santo Tomás dá a primeira resposta em relação ao segundo tipo de cognoscível sobre Deus, i.e., os cognoscíveis por revelação; enquanto que dá a segunda resposta em relação ao primeiro tipo de cognoscível sobre Deus, i.e., os cognoscíveis por demonstração.
Tendo
isso em mente, retornemos agora ao termo necessário
presente na pergunta levantada nesse artigo da Suma. Pois bem, vimos que o
termo necessário aqui é tomado não simpliciter, mas sim segundo ao fim, à
finalidade, ao objetivo.
Ora,
o necessário quanto ao fim divide-se em dois: ou será necessário ao fim para
que simplesmente tal fim exista, i.e., para que simplesmente tal objetivo seja
alcançado; ou será necessário ao fim para que exista otimamente, i.e., para que
não só se alcance o objetivo, mas que seja alcançado do melhor modo possível.
Assim,
com essa nova informação a respeito do necessário quanto ao fim, conseguimos
iluminar ainda mais as soluções de Santo Tomás. Quanto à primeira solução, temos
que o homem é ordenado por Deus para um fim que é ignorado pela razão natural, mas
nos entes dotados de intelecto, a consecução do fim depende não só da intenção
e dos atos, mas também que se conheça esse fim, para que assim se possa se ordenar
a tal objetivo. Por isso a doutrina sagrada é necessária: para que o homem
conheça tal fim sobrenatural e se dirija a ele. E aqui se perfaz a necessidade
dessa doutrina quanto ao fim enquanto simplesmente faz existir o fim, ainda que
num primeiro momento, apenas em princípio, i.e., como inteligido.
Quanto
à segunda solução, temos que é necessário ao homem uma doutrina ou disciplina
pela qual ele chegue o mais das vezes, mais rapidamente e com mais segurança ao
conhecimento daquelas coisas que são demonstráveis sobre Deus: e isso se dá
justamente pela doutrina sagrada, que contém não só conhecimentos estritamente
revelados, mas também conhecimentos que podem ser alcançados pela razão. E aqui
se perfaz o necessário quanto ao fim para que tal fim exista otimamente, pois
assim não só se vê a necessidade da doutrina sagrada quanto meramente ao fim
sobrenatural que ela dirige o homem, mas se vê esse mesmo fim de modo ótimo,
pois lhe agrega também aquelas coisas que compete à própria razão natural do
homem.
Perceba-se
aqui, como Santo Tomás e o Cardeal Caetano trabalham amplamente, conquanto de
certo modo implicitamente, com a liberdade humana: é o homem que deve se
decidir sobre seus objetivos, mas como pela só luz da razão natural, o homem
está fechado a meras opções naturais, mesmo que algumas ainda possam envolver
questões de natureza religiosa, cabe a iniciativa divina vir em socorro do
homem, transmitindo-lhe essa doutrina.
E
é justamente esse termo que veremos agora: doutrina.
Pois a dúvida que se levanta com esse termo é: quis Santo Tomás dizer por doutrina sagrada o mesmo que se diz por teologia? Ou, para complicar um pouco
mais, quis dizer o mesmo que se diz por fé?
Pois
bem, se tomarmos doutrina sagrada por
fé, teremos dois inconvenientes
dentro do esquema da Suma Teológica, de acordo com o Cardeal Caetano: primeiro,
que a mesma coisa seria perguntada duas vezes, visto que na IIa IIae,
q.2, a.3 pergunta-se se é necessário para a salvação crer em algo sobrenatural;
e em segundo lugar, que aqui neste artigo estaria sendo tomado doutrina sagrada equivocamente em
relação aos outros artigos da Suma.
Por
outro lado, se tomarmos doutrina sagrada
por teologia, seguir-se-ia que a fé
sem a teologia não seria insuficiente para a salvação, o que é falso. E esse
inconveniente nasce do fato de que na solução Santo Tomás disse que a doutrina
sagrada é necessária à salvação dos homens.
Para
desatar essa dúvida, devemos ter ciência que doutrina, como bem enunciado antes, não está aqui para significar ciência, opinião ou fé, e assim, doutrina
sagrada não deve ser tomada como fé em contraposição à teologia ou como
teologia em contraposição à fé. Mas antes, por doutrina sagrada entende-se simplesmente conhecimento revelado por Deus, quer seja revelado formalmente,
quer seja revelado virtualmente.
E
por que isso? Para que assim, tal conhecimento tenha razão, i.e., noção,
espécie, forma de disciplina e de doutrina; abstraindo-se tanto da razão
do credível e do cognoscível cientificamente (scibile).
E,
ainda devemos nos perguntar mais uma vez: por que é necessário abstrair do
credível e do cognoscível e ter esse conhecimento apenas como doutrina e
disciplina? Porque o conhecimento que necessitamos para a salvação, tal como
recebemos de Deus enquanto mestre no homem, é uma doutrina e disciplina, a
partir daquilo que temos em João 6,45: Est
scriptum in prophetis (Isa 54,13): “Et erunt omnes docibiles Dei”. Omnis qui
audivit a Patre, et didicit, venit ad me.
Além
disso, dissemos a pouco que esse conhecimento revelado por Deus pode ser
formalmente revelado ou virtualmente revelado: quanto ao primeiro queremos
significar o conhecimento revelado por Deus em si mesmo, i.e., a doutrina
sagrada em si mesma; enquanto que em relação ao segundo queremos significar o
conhecimento revelado por Deus em seus princípios, i.e., a doutrina sagrada
como premissa de uma ciência, que veremos mais adiante.
E
assim se vê mais claramente o porquê tal conhecimento não pode, na consideração
que fazemos agora, ter razão de fé ou de cognoscível científico, mas apenas de
doutrina e disciplina: porque aqui estamos apenas determinando sua existência (an sit) e sua necessidade (propter quid), de modo extrínseco tanto
ao sujeito cognoscente quanto ao sujeito crente, e nesse sentido tal
conhecimento tem meramente caráter descritivo (quid sit – doctrina sacra), qualitativo (qualis sit – modo sobrenaturalis) e normativo (disciplina sacra), conquanto ainda seja necessário à salvação,
pois é desse conhecimento, de certo modo, que advirá a fé, como veremos.
Portanto,
quando Santo Tomás diz que a doutrina sagrada é necessária à salvação, não está
querendo dizer que a teologia abstraída da fé é necessária à salvação, mas sim
que a teologia (aqui tomada como doutrina sagrada), abstraída da fé e da
ciência é necessária à salvação.
Além
disso, nem se pode dizer a fé é
suficiente, pois a teologia se encerra na fé, como o animal se encerra no
homem: pois assim como o homem é um tipo de animal, assim também, fé é um tipo
de teologia, i.e., um tipo de doutrina sagrada, i.e., um tipo de conhecimento
revelado por Deus. Perceba-se aqui a nuance de como os termos são tomados: no
parágrafo anterior e nesse, chama-se teologia
a doutrina sagrada, mas já dito,
enquanto abstraída da fé e da ciência, isto em relação ao sujeito crente e
ciente.
Mais
ainda, a teologia, no dizer de Santo Agostinho, nutre, defende e fortalece a
fé, e ainda, a gera: pois, se é verdade que a fé, em primeira instância, venha
de Deus mesmo que infunde na alma uma inclinação para que creia; ainda assim, a
fé também vem do ouvir à palavra de Cristo quanto às coisas credíveis, i.e., às
coisas de fé (sobrenatural).
E
por isso, se alguém objetar dizendo que então todo adulto fiel que crê
explicitamente é, portanto, teólogo, deve-se dizer que o é não simpliciter, mas secundum quid, a saber, segundo os princípios, que como veremos são
(principalmente) os artigos de fé.
Voltemos
nossa atenção novamente agora àquilo que foi assumido como uma das premissas
para se provar a necessidade da doutrina sagrada, a saber, que o fim último do
homem é sobrenatural e, portanto, ignoto pela luz da razão natural.
Pois
bem, Duns Escoto nega que esse fim seja sobrenatural e de certo modo nega que
seja ignoto, conquanto conceda que a sua obtenção seja sobrenatural e que para
nós, no estado de vida atual e decaído, nos é ignorado; mas simpliciter não o
seria, isso enquanto a mesma natureza humana, sem considerar o auxílio da
graça.
Quanto
a ser ou não ignoto à razão natural, postulamos assim por justamente ser
sobrenatural tal fim, não abarcando as competências da pura natureza humana.
Desse modo, mesmo que conhecêssemos perfeitamente a natureza da alma humana,
quanto às coisas naturais, ainda assim nunca a conheceríamos sob a razão pela
qual ela é ordenada a tal fim: pois tanto a alma, quanto o fim dela, estão além
da amplitude do natural, i.e., são sobrenaturais de certo modo.
Mas,
como dito, Escoto diz que tal fim nos é natural, dando três razões para isso:
primeiro, partindo da autoridade de Santo Agostinho, diz que poder ter fé é da natureza do homem, mas ter
fé em ato é graça dos fiéis, logo, conclui Escoto, é da natureza do homem
poder ter fé, logo é natural a ele o fim ao qual a fé leva, i.e., a beatitude
eterna. Em segundo lugar, partindo de um argumento ex appetitu, diz que todo homem naturalmente apetece a esse fim que
chamam de sobrenatural. E em terceiro lugar, partindo de um argumento ex ratione naturalitatis, diz que toda
potência ou será natural, ou será violenta ou será neutra, não havendo nada de
sobrenaturalidade na potência e consequentemente no ato.
Essa
última razão deve ser mais elaborada, para que assim possamos melhor desmontá-la.
De acordo com Escoto a sobrenaturalidade só se verifica pela comparação da
potência a um agente que a impressiona de modo natural ou de modo sobrenatural,
mas como, segundo ele, pela natureza o homem pode ter fé e pela potência
apetitiva o homem pode apetecer a beatitude naturalmente, segue-se que a
impressão feita é meramente natural, provindo do próprio agente humano. E
assim, comparando a potência ao ato, i.e., comparando a possibilidade de ter fé
com o ato de ter fé e a possibilidade de apetecer a beatitude eterna e com o
ato de apetecer a beatitude eterna, não se verifica nenhuma sobrenaturalidade,
pois se dá meramente a nível natural, segundo Escoto.
Para
responder a isso, seguindo os passos do Cardeal Caetano, devemos fazer uma nova
distinção: natural, violenta, neutra e obediencial. Essa divisão se dá tanto na
potência, como no ato. Mas Caetano faz uma advertência: não existe potência
neutra, i.e., indiferente, nas coisas naturais, exceto nas artificiais (o que
ele trata em outro livro).
Pois
bem, o que Caetano quer dizer com essa nova informação: obediencial? Obediencial, segundo ele, é o nome que se dá à aptidão
que algo tem de se fazer nele tudo o que Deus ordenou que nele fosse feito: e é
segundo essa aptidão que se diz que a nossa alma está em potência à beatitude
prometida.
Esclarecido
isso, passemos a desmontar as razões de Escoto. Quanto à primeira razão,
devemos dizer que uma coisa é que algo seja da natureza e outra coisa é que
seja natural. Pois que algo seja da natureza apenas indica o sujeito desse
algo, a saber, a natureza. Enquanto que, algo ser natural indica o modo dessa
potência, dividindo entre natural, preternatural, contranatural e sobrenatural.
Desse modo, Santo Agostinho só quis dizer que a potência obediencial existe no
homem e não nos irracionais, i.e., que é da natureza do homem poder ter fé,
pois é racional.
Quanto
a segunda razão de Escoto, simplesmente se deve negá-la, pois não é evidente
que todos apetecem a beatitude eterna, aliás, é quase evidente que nem todas a
apetecem, justamente porque nem sabem que a ela são ordenados.
Quanto
a terceira razão, deve-se negar a suposição de que a sobrenaturalidade não pode
se dar num ato que advém de potência natural, tal como a potência apetitiva em
nós, pois, segundo Caetano, existem certos atos, que em seu gênero, são
simpliciter sobrenaturais, como os atos que advém da graça ou da glória: e
visto que, nem a graça, nem a glória destroem a natureza, no sentido de mudar a
espécie humana para outra espécie, é óbvio que os atos informados pela graça ou
pela glória, continuam sendo atos das potências da natureza humana, conquanto
sobrenaturalizados.
E
assim, além de termos provado a conclusão em suas duas partes, uma quanto
àquilo que é possível conhecer de Deus apenas por revelação, outra quanto
àquilo que é possível conhecer de Deus também só pela razão, ainda demos a
razão da premissa assumida na resposta, de que a beatitude eterna é incógnita
naturalmente ao homem, e por isso a necessidade de uma doutrina e disciplina
que lha apresente.
Mas
ainda resta uma objeção de nível gnosiológico levantado no segundo argumento em
contrário desse artigo. Lá diz que todo ente é cognoscível cientificamente (scibile) pelas disciplinas físicas, não
sobrando ente algum que possa ser sujeito (objeto formal tomado formalmente) da
doutrina sagrada, e que por isso ela não seria necessária, visto que todas as
disciplinas alcançáveis pela só razão já tratam de todos entes, inclusive de
Deus, na teologia natural ou metafísica.
Quanto
a essa objeção, devemos distinguir duplamente a antecedente, i.e., a primeira
premissa, a saber, que todo ente é
cognoscível cientificamente (scibile)
pelas disciplinas físicas.
De
um primeiro modo podemos entender todo
ente segundo tudo o que pertence a cada ente ou não, mas só segundo o que é
abstraído do sensível: a afirmativa é falsa, enquanto que a negativa é
verdadeira.
De
um segundo modo podemos entender todo
ente segundo todos os modos ou não, mas só enquanto pode ser iluminado pela
luz do intelecto agente: a afirmativa também é falsa, enquanto que a negativa é
verdadeira.
E
assim, embora assumindo qualquer um dos entendimentos verdadeiros da premissa,
seja possível desfazer a objeção em contrário, ainda assim, Santo Tomás usa
explicitamente o segundo modo, para que assim desate o problema comparando luz à luz, i.e., que sim, todo ente,
segundo o modo pelo qual pode ser iluminado pela luz intelecto agente, é
cognoscível cientificamente (scibile) pelas disciplinas físicas; mas segundo o
modo pelo qual pode ser iluminado pela luz sobrenatural de Deus, ele é
cognoscível cientificamente (scibile) apenas pela doutrina sagrada.
Contudo,
Santo Tomás usa do primeiro entendimento em sua conclusão primeira, apesar que
de modo implícito, ao dizer que nos é necessário um conhecimento superior ao
que a razão natural é capaz de obter; ora, como a razão só é capaz de obter
conhecimento a partir da abstração do sensível, resta então um tipo de
cognoscível superior, obtido de uma fonte totalmente inteligível, que são os
cognoscíveis da fé: conquanto, como se verá ainda, nesse estado de vida fora da
Pátria, evidentemente se tem algo compartilhado com o sensível.
Mas
essa resposta, mais uma vez, não agrada Escoto, que diz isso prova apenas que a
doutrina sagrada ou a teologia é distinta das disciplinas físicas, mas não que
seja necessária, que é o intento dessa discussão.
Entretanto,
o que Escoto não percebe, é que ao afirmar que isso prova a distinção da
teologia em relação às outras ciências, implicitamente está admitindo que isso
prova a sua necessidade.
Para
notarmos isso é necessário ter em mente que diversos modos ou métodos de
conhecer algo é sempre acompanhado ou por diversos objetos formais, ou por
diversas razões do mesmo objeto formal, sendo que está última, caso se tenha um
método adequado e similar, acabará por ter uma ou outra conclusão
compartilhada, enquanto que se o método não for adequado, se terá diversas
verdades científicas.
E
é por isso que as mesmas coisas aceitas sob uma razão diferente de conhecer,
i.e., sob uma consideração diferente, induzem à uma diversidade de cognoscíveis,
havendo, portanto, alteridade entre os cognoscíveis.
Por
exemplo, o astrônomo e o físico chegam à mesma conclusão de que a Terra é
redonda, mas partem de métodos distintos, conquanto adequados e semelhantes para
o estudo de tal objeto. Assim, o astrônomo, partindo principalmente da luz da
matemática, que em sua consideração abstrai a matéria sensível, prova a
circularidade da Terra, enquanto que o físico, partindo da luz das coisas
físicas mesmas, i.e., considerando a matéria, conquanto sempre abstraindo da
matéria signada, chega na mesma conclusão.
E
assim, a astronomia não só é uma ciência distinta da física, mas necessária,
pois apesar de chegar a algumas conclusões idênticas à da física, ainda assim,
chega a partir de outra luz e, também, chega a outras verdades que não fazem
parte do escopo da física.
Atente-se
aqui, que por astronomia se entende a
geometria aplicada. A geometria é a disciplina da matemática que estuda o
número extenso ou contínuo em si mesmo, enquanto que a astronomia estuda esse
mesmo objeto, mas com a consideração dos espaços e lugares, ainda que
abstraindo da matéria que os ocupa.
Enquanto
que por física se entende toda a
vasta gama de disciplinas que trata dos entes naturais ou móveis, subdividindo-se
em vários ramos de acordo com alguma característica própria que se adiciona ao sujeito
principal da física, que é o ente móvel: assim, a física geral trataria simplesmente do ente móvel; a cosmologia trataria do ente móvel
segundo o lugar; a química do ente
móvel segundo a qualidade; a biologia
do ente móvel segundo o aumento e a diminuição; a zoologia do ente móvel segundo sensação e a antropologia do ente móvel segundo o intelecção.
Algo
a se anotar: por doutrina sagrada,
como visto, o Cardeal Caetano, seguindo Santo Tomás, entende conhecimento revelado por Deus, por isso,
que numa linguagem mais próxima a atual, poderíamos entender o conceito de doutrina sagrada pelo conceito de revelação. De fato, tudo o que foi dito
nesse artigo diz respeito, de certo modo, antes à revelação de Deus do que propriamente à teologia enquanto ciência,
que será tratada mais adiante. Além disso, a revelação de Deus tem justamente o caráter demonstrado aqui da doutrina sagrada, i.e., um conhecimento
revelado por Deus necessário à salvação do homem que em si mesmo abstrai tanto
do sujeito cognoscente, quanto do sujeito crente: pois o conhecer e o crer na
revelação são passos posteriores à própria revelação, se bem que, se não o são
sempre posteriores quanto ao tempo, o são quanto à lógica e à geração.
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